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Mostrando postagens de janeiro, 2017

Dois e dois

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Acabou. Não existe mais. Quem aproveitou, aproveitou. A nova geração nunca vai saber como é dançar música lenta. Uma morte triste, a se lamentar profundamente. Dançar coladinho é um comportamento extinto. Não consigo precisar quando e como aconteceu. Mas o fato é que não existe mais o ritual da música lenta. Um ritual que, ao primeiro acorde de um Lionel Richie da vida, fazia as garotas experimentarem um frio na espinha, e os rapazes tomarem a iniciativa da conquista. De um lado, ficavam as meninas, cheias de expectativas. De outro, estavam os garotos, a caminho de seus alvos. Uns esticavam a mão, gentis. Outros, mais autoconfiantes, apenas acenavam com a cabeça. Sorrisos tímidos, olhares sem graça, passos desengonçados. E dava início o jogo. Uma versão ultrarromântica do caçador-atrás-da-sua caça. Mas que fique claro: um abate consentido, desejado, com uma trilha sonora inspiradíssima. Ao som de hits do Earth, Wind & Fire, o homem desenvolvia a determinação. Passava por cim...

Amizade com steinhager

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- E se a gente se beijasse? - disse o amigo manguaçado para a amiga também amaciada pela cerveja com steinhager. - Beijar? Beijar como?  - Ué, beijar. Na boca. - E amigos beijam na boca, ô Túlio? - riu, encostando a cabeça no peito dele. Túlio segurou o queixo da moça, forçando um contato visual: - Amigos podem fazer qualquer coisa. Um selinho. Só pra ver como é. Para de ser chata... - Bom... selinho tudo bem.  Rebeca fechou os olhos e sentiu a boca de Túlio. Era bom. Era muito bom, hein? E ficaram ali um tempão, um selinho eterno... Por fim, abriram os olhos em efeito slow motion, cara de bobos. Era ótimo. - Beca, posso... - ele ia dizendo. Mas quem disse que a boca-louca de Rebeca deixou? O que seguiu foi um senhor beijo, esfomeado, daqueles que só uma boa parede de alvenaria era capaz de suportar. Era um beijo com sincronia e verdade. Paixão e ritmo. E não tinha fim.  Mas acabou quando algum engraçadinho na rua buzinou e mandou os dois procurarem o motel...

Disk-ilusão

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- Que sorrisinho é esse? - Mensagem do cara! - E? Ela mostra o celular, toda orgulhosa. O WhatsApp não deixa dúvidas. O cara requer a presença de Aline. Naquele momento. "Tô te esperando, num demora. C".  Mais que depressa, Aline sacou uma nota de R$ 50 da bolsa, estendendo-a sob a garrafa de cerveja. - Ei, espera aí. Toma mais uma. A gente acabou de chegar.  - Nem dá, Gil... O cara tá me esperando. - Eu li, mas é, tipo assim, delivery? Ligou, recebeu em casa? - Ai, amiga, não é isso. Eu tô super na pegada. Nosso lance é assim, sem compromisso. Garçom? GARÇOM! Suspende minha empanada. Tô vazando! - Então o lance tá resolvido na sua cabeça, que bom! Mas e se ele quisesse namorar? Já de pé, ela responde de bate-pronto: - Eu namoraria no ato, gata, é claro. - E, me diz: esse delivery rola faz quanto tempo? - Delivery? Ah, sua chata! - Quanto tempo, hein? - Ah, acho que uns 4 anos... por aí. É muita química, é pegação... é tão bom, Gil. Tô indoooo... - Tá, ...

Luz(cidez)

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Fez uma grande, uma enorme descoberta e, a partir dali, em estado de choque, passou a ver o que a cercava em câmera lenta, com cores saturadas e leves distorções.  Uma música triste –sabe-se lá como - entrou na cena, perfeita trilha sonora para o que acabara de descobrir.  Foi naquele momento, sem razão de ser, que ela teve a certeza de que tudo o que sentia, todo aquele amor, aquela urgência, não passava de um grandessíssimo mal-entendido. Ela definitivamente não gostava dele.  Gostava, sim, do que ele representava para ela. Parecia sutil, mas quando ela finalmente enxergou a diferença, percebeu o quão gigantesco era o abismo que separava aquele sentimento menor do amor. Foi preciso esfregar os olhos, respirar fundo e ordenar as emoções. Já sabia o que se passava, de verdade. Era hora de descobrir o que fazer com a revelação. Descartando, por motivos óbvios, a hipótese de sair em disparada, leve e louca, bradando “eureka”.

Estudo de caso

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Amizade entre homem e mulher? Ô, colega, assunto irritante... Por quê? Porque... porque sim. Eu até acreditava em amizade entre os sexos - e sem sexo. Mas olhando bem de perto, bem de pertinho, eu tive que reconsiderar. A Fê, por exemplo. Amigaça. Boa de papo, uma cabeça... Sempre tem um conselho bacana, uma opinião interessante. Crânio. Mas é feia. Bem, não é assim feia, feia... É sem graça. Eu não pegaria, sabe? Meio tábua, sem curvas, um nariz avantajado. Inteligente-feia, manja a peça? Quando usei minha relação com a Fê pra defender a amizade entre homem e mulher, vieram com a pérola: "homem só consegue ser amigo de mulher feia". Fiquei de cara com isso! Mas, pensando bem, o fato dela ser, assim, sem sal, ajuda. Adoro a Fê, puxa... Mas, não rola. Ah, tem a Claudia também. Claudinha. Gata, viu? Tão gata que, logo que conheci, tive que ir pra cima. A gente ficou junto tipo umas 3, 4 vezes. Altas loucuras. Mas daí o tempo passou, a química esfriou, pintaram umas amig...

Que bom que você veio

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"Oi. Que bom que você veio! Me acompanha no vinho?" " Garçom? Desculpa... chama você, claro. " " Então, você deve ter estranhado meu convite. Mas é que preciso muito esclarecer umas coisas.  Vou direto ao assunto, tá? " " O vinho tá ótimo, verdade. Pois é... Por que a gente terminou mesmo? Quer dizer... porque a gente brigou eu sei. O que eu não sei é porque depois você não quis voltar? Não era motivo pra terminar tudo, era? Fala a verdade, abre seu coração. Eu não tô desenterrando isso pra gente ficar junto, eu sei que acabou. " " Tô sabendo do seu casamento... parabéns, viu? Foi rápido, né? Bacana... Mas é que tô num momento de resolver questões pendentes na minha vida e... " "…  isso, tô fazendo terapia, é muito bacana, você devia tentar um dia, todo mundo devia. Então... nosso término é uma questão pendente pra mim. Tipo, eu não entendo o que aconteceu. Me explica? " " Ahã... sei... lembro disso, claro...

Perspectiva

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Ele sempre viveu como se fosse morrer cedo.  Não que verbalizasse isso: “vou morrer cedo”.  Mórbido demais. Mas essa urgência de viver, essa falta de compromisso com as coisas e as pessoas... só podia ser a certeza de que não duraria para sempre.  Não duraria nem algumas horas, bem-dizer. Era elétrico. Energético. Despreocupado.  Mão aberta. Duro e endividado. Aproveitava até a última gota.  Ia fundo até o último fôlego. Vivia do agora, como se tudo pudesse terminar a qualquer momento. “E não é isso mesmo?”, dizia sempre, profundo (ou irônico?) “Atenção, pode ser o último segundo da sua vida”.  E soltava uma risada meio nervosa, angustiada, antes de sair agitado atrás de alguma emoção não vivida. Então a conheceu. ... ... ... E pela primeira vez na vida torceu para que o agora durasse para sempre.

Mentiras Sinceras

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Sara já disse a verdade numa época. Muitas verdades.  Na verdade, até uma certa idade ela só dizia a verdade.  Formação romano-cristã, tinham ensinado a ela que o certo era ser sincera. E que isso lhe garantia o céu. Nesta época, dizia a quem queria escutar todas as suas vontades e verdades. Sua vida era como um livro escancarado. Era uma mulher independente e adorava verbalizar isso. Tinha personalidade forte e deixava claro nas suas tomadas de posições. Era bem resolvida, sabia o que queria, como queria, sem papas na língua.  E era sozinha. Tremendamente sozinha. Hoje as coisas mudaram. Sara mudou. Faz algum tempo que não diz mais a verdade.  Da boca dela, por exemplo, não sai mais nada a respeito da sua carreira bem sucedida. Ela nem se vangloria a respeito dos bens que acumulou. Seus luxos são mantidos em segredo. Para todos os efeitos, tudo o que ela tem veio dos seus pais. A profissão é mal-remunerada, diz. E inventou um cheque especial implacáve...

Check-in

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Da poltrona 14b, Nádia esticava o lindo pescocinho, aflita. O vôo era para Brasília, e voos para Brasília eram especialmente interessantes. Principalmente para ela, que tinha uma convicção na vida: iria encontrar o homem da sua vida “nos ares”. E Nádia sabia exatamente como começou essa certeza.  Era menina-moça, 13 anos, seios ainda em formação, boca virgem, como era o resto. Numa "Sessão da Tarde" qualquer, ela se encantou com um filme. A mulher, desgostosa da vida, tomou um avião de volta para sua terra natal. No auge da sua desesperança (tinha rompido com sua alma-gêmea), mal notou o homem que sentou ao seu lado. Resumo da trama: entre turbulências e silêncios constrangedores, os dois se apaixonaram. A 300 mil pés de altura, em parcos 90 minutos de vôo. Daquela tarde em diante, Nádia via, em cada trecho voado, uma oportunidade mágica de, finalmente, ser feliz no tal jogo do amor.  Pensou até em ser aeromoça, mas a taquicardia que sentia toda vez que pisava num avião a...

O que se quer ouvir

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Tudo o que uma mulher quer ouvir é “eu cuido de você”. “Eu cuido de você” fala mais fundo do que “eu te amo”, “estou apaixonado por você” ou “você é a mulher da minha vida”. “Eu cuido de você” tem profundidade, responsabilidade, doçura, envolvimento sem barreiras. “Eu cuido de você” sugere futuro, segurança, compromisso. E um bem-querer absoluto. Uma mulher quer ser cuidada, não venerada. A veneração tem data de validade, o cuidado é perene. Mulheres, mesmo as independentes, precisam se sentir protegidas. Precisam de alguém que cuide delas. E cuidar não requer muita coisa. Pode ser um sorriso na hora certa, um segurar as mão com mais força, um olhar definitivo, aquele de cumplicidade, de pode contar comigo. “Eu cuido de você” é uma frase que faz qualquer homem parecer maior. Depois dela, o abraço fica mais gostoso, o colo é de um aconchego indescritível. Fácil, lágrimas brotam dos olhos das mulheres que escutam “eu cuido de você”. Porque com a declaração vem uma sensação...

Mosca branca

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Ele acabara de dizer “a” frase. A tal, que volta e meia fazia as honras na vida de Raquel, sempre em momentos estratégicos, quando tudo parecia ir maravilhosamente bem. Bem até demais. - Você é uma mulher rara, tipo uma mosca-branca. Tenho medo de você. Essa era “a” frase. O ineditismo ficou por conta da expressão “mosca branca”. Mas o “medo de você” era manjadíssimo. Raquel bem que tentou, mas não houve jeito: revirou os olhos, sinal claro de que aquele papo era pra lá de familiar. Com o maxilar travado, sentindo a boca secar instantaneamente, começou um origami patético com o guardanapo da mesa do bar. E resolveu fugir dali. Em pensamento. Não foi muito longe. Voltou alguns meses, talvez um ano, numa sessão de cinema privê com seu “prospect” da época. Vinho argentino, filme espanhol, tudo caminhando para uma noite calientíssima. Então veio “a” frase:  - Você me dá medo, sabia? - Ahn? Como assim? - Não é medo, medo... você é muito pra mim. Sei lá. Não consigo administra...

Divã

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Aquela sessão prometia ser particularmente dolorosa.  Tereza queria fugir da tarefa de contar em detalhes o término escandaloso do seu pseudo-relacionamento. Não queria relembrar a humilhação que passou ao ver seu “rolo” apresentando aquela fulana para todos os amigos como sua “nova namorada”.  Namorada? Como, se o fato dele ter sido um mero “rolo” era justamente porque ele não estava pronto para compromisso? Não naquele momento?  Ela estava realmente destruída. Era difícil repassar toda a história com sua terapeuta, mas mais difícil ainda era lidar com ela, a história, sozinha. Pediu para antecipar a sessão, e, pela primeira vez em seis meses de terapia, chegou antes do horário. Folheou, distraída, algumas revistas, esperando que os minutos passassem logo e a tortura do desabafo, idem.  Então, a porta se abriu e se ouvia a voz animada de Dayse (ela sempre estava animada) se despedindo de alguém. Tereza levantou o rosto amassado a contragosto e avistou "e...

Perfeição

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No meu mundo perfeito o final de semana teria 3 dias. Chocolate não engordaria. O amor não teria fim, nem a paixão seria cega e tão estúpida. No meu mundo perfeito, iria a pé pro trabalho, e voltaria pra almoçar com meu filho, todos os dias. Chefe? Só se fosse realmente mais inteligente e capaz que a gente. E os salários seriam justos. De acordo com o rendimento. Talvez já fosse uma pessoa rica no meu mundo perfeito... No meu mundo perfeito homem não se sentiria diminuído por mulher vencedora. E a mulher não perderia sua feminilidade na busca por uma igualdade idiota, que não faz sentido pra ninguém. Então, neste mundo, homem seria homem, mulher seria mulher, independentemente de quem ganha mais, quem foi mais longe na carreira, e essas bullshitagens. Quando estivessem juntos, abraçados, ficaria bem claro quem protege e quem é protegida, quem é a fortaleza e quem é a leveza. Côncavo e convexo, in e yang. No meu mundo perfeito, assim que a cabeça encostasse no travesseiro, todas...

Mulher solteira procura

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Cansou da vida de solteira. Da liberdade. Da falta de compromisso. Da devassidão. E da solidão. Resolveu, então, namorar de novo. E, para isso, necessariamente, Danielle precisava arrumar um namorado. Não qualquer um. Por mais que estivesse decidida a por fim à fase free, não renunciou a jeito algum de seus critérios: bonito, inteligente, alto, generoso, bonito, bem-humorado, bom caráter, espiritualizado, fiel, culto, alto, e... bonito.  Como quem procura emprego, ela se pôs a procurar namorado. Ligou para alguns amigos, reativou antigos contatos, refez seu currículo, ops, seu perfil no Facebook, postando fotos novas e posadas especialmente para a função. Cadastrou-se num aplicativo de paquera (em dois, na verdade). Deixou suas intenções e poréns muito claros em nicknames e frases de efeito no WhatsApp. E recheou sua agenda com atividades que potencializavam suas chances: às segundas, supermercado 24h; terças, vernissages e afins; quartas, festas alternativas; quintas, sinuca; ...

Acelerou

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Olhou mais uma vez pro lado. Já tinha perdido a cabeça há tempos, agora quase perdeu a direção. Aquela mulher, a-que-la mulher, era sua. Sorriu sozinho, passou nervosamente uma das mãos pelos cabelos, a outra segurava o volante, firme até demais. Alheia ao efeito (ou seria defeito?) que causava nele, ela curtia a paisagem, cantarolando Djavan baixinho e marcando o ritmo com os longos dedos de unhas escuras e vários anéis a tamborilar em suas bronzeadas/torneadas coxas. Na troca de marcha, ela acariciou distraidamente sua mão. Ele sentiu então o que chamavam de frisson ("ah, era isso?"). Olhou de novo para a amada, que ajeitava os óculos escuros no topo da cabeça. Foi tão sexy, mas tããão sexy, que ele jurava ter visto a cena em slow-motion. Voltou sua atenção para a longa e reta estrada. Mas logo se perdeu em sinuosos devaneios. Como era possível que ela, a-que-la mulher, estivesse ali? Loira, alta, belíssima, de matar qualquer mulher de inveja - e qualquer homem de tes...

Qualé a música?

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Numa noite quente de sábado, escutando um som no modo “randômico”, resolveu arrumar a caixa de fotos. E foi assim que traçou uma interessante relação entre os homens que teve ao longo da vida e os estilos musicais. Um exercício divertido – e revelador. O primeiro namorado era puro rock´n´roll. Transpirava rebeldia, atitude. Era autêntico. Ousado. Energético. Mas over para uma principiante. Já o namorado seguinte era envolvente, hipnotizante como a música eletrônica. Mas, também como ela, era raso, superficial. E cansou. O terceiro ... Quem foi o terceiro? Ah, esse era música pop. Quem se lembra? Totalmente descartável. Depois veio o que se tornou marido. Pense em um estilo previsível, matemático, cadenciado, morno. Valsa! Ele era valsa. E, não, ela nunca gostou de valsa. De volta à vida de solteira, na ânsia por algo mais... quente ... Conheceu o tango. Ah, o tango. Passional, sexy, difícil, enigmático, misterioso e... dramático. Muita paixão, muito sexo. E muitas lágrimas....