sexta-feira, 12 de abril de 2019

A dor que é sair do casulo


O transe da ayahuasca já passou. Acho. A sensação é de torpor, tipo quando a gente volta da anestesia, sabe? Só que, nesse caso, uma anestesia às avessas. Durante o “sacramento”, senti tudo com uma intensidade quase insuportável. Sons, luzes, toques. E foi ruim. Foi confuso. Não tive nenhum grande insight, não vi nada com nitidez, mal saí do banheiro... um mal-estar terrível me acompanhou quase o tempo todo: além do enjôo, veio a dor de barriga - evacuei até não poder mais (mentira: fui além do não poder e implorei praquilo parar). Parece que eu precisava colocar pra fora coisas bens ruins e fedidas. Entendi dessa forma e tentei me conformar.

Quando não estava no banheiro, estava lidando com minha solidão - ilustrada por várias alucinações escuras e disformes. Essa foi minha revelação: estou só e triste. Vez ou outra, vinha um conforto: “é um processo, confia. Dê tempo ao tempo”. Mesmo assim, era uma tristeza doída, que se converteu em lágrimas grossas que molharam todo meu rosto. Foi impossível parar de chorar. Era eu me permitindo sentir tristeza e admitindo que estou só (e há tempo demais). Um dia essa solidão vai ter fim, pensei, mas hoje ela está aí, lide com isso. Ou... socialize! E os pensamentos não pararam: “Que tal trocar experiências com as outras pessoas? Se abra! Não ostente sua solidão como se ela fosse uma espécie de troféu. Não é! Você está triste, sua solidão te incomoda. Então, se cerque de pessoas, deixe que elas se aproximem e te vejam – de verdade! Demonstre seus sentimentos, suas mágoas, ou sua admiração, seu carinho, seu amor. Busque o amor nas pessoas, confesse sua carência. Se deixe amar.” Bronca braba...

Pensando aqui, pós-ritual, mas ainda sob um finzinho de efeito do Daime: foi tudo confuso e soturno por que essa sou eu hoje: fechada, isolada, vivendo a mentira da mulher-independente-realizada-feliz. Bullshit. Me relevar, mostrar meus defeitos, inseguranças, demonstrar que preciso das pessoas, tudo isso não vai me afastar delas. Pelo menos eu acho que não. A verdade é que meu querido e familiar casulo é escuro e frio, não me sinto mais confortável nele. Preciso de companhia. Quero ter as pessoas por perto, de verdade. Talvez, assim, a espera pelo amor se torne suportável. Hoje é só dor.

sábado, 16 de março de 2019

Ele sempre esteve ali, o amor




Te amo
(pra caralho)
De um jeito inédito
Surpreendente 
Pra sempre
Desde sempre

Sinto saudade
Do que a gente nunca teve
Daquilo que tivemos muito
E que a gente nem sabia



A gente viveu quase nada 
E foi feliz
A gente experimentou quase tudo 
E foi absurdamente feliz 
Imagina a felicidade do tudo
De, um dia, a gente junto?

Te amo faz tempo e pra sempre
Diferentes amores, 
Até chegar no amor de hoje,
Urgente, carente

Anseio ser inteira sua
(isso é tão inédito!)
Meu sonho de relação:
Risadas, tesão, mente, coração, 
desafio, conforto, intimidade, paixão

Estava tudo ali, desde sempre
Perto, possível
Hoje não mais
Meu amor idealizado
Minha utopia, fantasia,
Ilusão.


(Já disse que
te amo
pra caralho?)

sábado, 18 de agosto de 2018

Legal o escambau

Alguém me disse, às vésperas do meu aniversário, que se eu queria resultados diferentes na vida, devia fazer as coisas de forma diferente. Aquilo bateu fundo, veio como um ensinamento divino, uma dica de "ano novo", sei lá. E então comecei, aos pouquinhos, a mudar. Desde dormir do lado oposto da cama, coisa básica assim, até a negociar melhor meus trabalhos e cachês... enfim, comecei a me provocar e experimentar outros jeitos de fazer as coisas, de me expressar, de me colocar diante da vida. Vira e mexe me pego pensando... "peraí, deixa eu tentar fazer isso de forma diferente!". É um exercício legal, viu?

E então hoje, andando de bicicleta (outra forma diferente de passar o tempo, espairecer) me veio um belo insight: a grande mudança só vai acontecer quando eu parar de querer "ser legal" o tempo todo, com todo mundo. Percebi que faço isso minha vida inteira. A consequência: ando rodeada de pessoas que me magoaram e mantenho contato com elas por que, claro, sou legal. 

Talvez elas nem saibam o quanto me magoaram, ou acham que eu "tô de boa". Mas eu não tô nada de boa e, sabe? Eu preciso fazer diferente e quero distância dessas pessoas. Dessa gente que me faz mal. Que, em algum momento, me ignorou, me deixou na mão, me machucou com palavras (ou a ausência delas). Gente que sumiu assim, do nada, e que só me procura quando precisa... 

Por que mantenho contato com pessoas assim? Por que sou simpática, acessível, legal com elas quando (re)aparecem na minha vida? 

A maior mudança dessa nova mentalidade (fazer diferente pra ter resultados diferentes) aconteceu hoje. Depois de identificar aqueles que me magoaram, começou a limpeza: telefones apagados, contatos bloqueados, desconexões de todos os tipos. E sem medo de ser questionada. Se vier perguntar, a resposta vai ser clara, simples, direta: "você, de alguma forma, me magoou e não merece que eu seja legal". 

Sou diferente, melhor agora e legal comigo mesma.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A seguir, cenas...

Sempre acreditei que meu futuro-amor-definitivo está lá no meu passado.

Que ele passou pela minha vida, e por um motivo qualquer, não ficou. Mas que, logo mais, volta - e pra ficar. Acho que esse sempre foi "O Plano": uma brincadeira que o universo reservou pra mim, sabe-se lá porquê.

Não é possível que o grande amor da minha vida seja um completo desconhecido. Alguém que não saiba nada sobre mim, minhas vitórias, batalhas, medos, qualidades/defeitos. Imagina o trabalho que dá atualizar esse cara sobre tudo isso?

Sempre que me imagino envelhecendo ao lado de alguém, essa pessoa me é tão, tão, familiar! E a cena traz um conforto absurdo. Uma certeza de que todos os desencontros - e foram muitos - valeram a pena. Era pra ser assim. Um plot twist perfeito, pra fazer a (minha) novela mais interessante.


Se bem que reviravolta mesmo seria eu "morder a língua" e encontrar o amor em uma pessoa inédita. Uma pessoa que ficaria feliz em escutar minhas histórias, em descobrir minhas qualidades/defeitos, em estar ao meu lado nas novas batalhas, comemorando as vitórias que estão por vir. E que me ajudasse a superar os medos. Como esse, de me apaixonar por alguém inteiramente novo.

É, posso aceitar esse fim. Desde que ele seja feliz.

Ao pé do ouvido

Quando viu, já era. Virou paixão. Mas nunca foi esse o combinado.

A brincadeira era colocar cor àquela antiga amizade. Adicionar beijos e amassos aos encontros que, diga-se de passagem, sempre foram bons. A ideia era apimentar as coisas entre eles, sem expectativas, sem ilusões. Apenas curtição. Um jeito novo de se curtir.

Nada poderia dar errado.

Eram muito, muito amigos. Confidentes. Parceiros. E, sem aviso prévio, no impulso vindo de doses a mais de álcool, resolveram ir um tiquinho além. Flertaram. Trocaram provocações e bobagens ao pé do ouvido. E, depois, beijos e carícias. Uma, duas, três vezes. Um pouco mais.

Até que ela percebeu o crescente da paixão. O querer mais, o querer só pra ela. Sinais de ciúmes, angústia da saudade. Uma leve febre quando estavam juntos. Um desapontamento ao se despedirem.

E, então, fugiu.
A partir dali, tinha tudo pra dar errado. Pra que ficar pra ver?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Depois do match

Virgínia chegou no bar e ele já estava na mesa ("milagre, eles sempre se atrasam", pensou, sorrisinho de lado). Levantou-se rápido ("oba, ele é bem alto!"), cumprimentou com um beijo respeitoso, puxou a cadeira pra ela. "Aquele encontro prometia", comemorou em pensamento. "Sabia que, um dia, esse aplicativo ia servir pra alguma coisa".

Cavalheiro, ele chamou o garçom, pediu a cerveja, uma água pra acompanhar, e sugeriu o petisco. Tirando os jargões típicos de um advogado e palavrões demais pro seu gosto, o papo fluiu bem. E a cada cerveja - que ele bebia bem rápido - a conversa foi se tornando... reveladora.

- Detesto carnaval. Esses bloquinhos espalhados por aí sujando a cidade, incomodando gente de bem... odeio. Um bando de desocupados, isso sim. E um monte de gays, esse povinho.
- Alguma coisa contra os gays, Caio?
- Não, não, nada... desde que eles não fiquem muito perto de mim.

Daí em diante, foi ladeira abaixo.

- Fiquei casado 11 anos, mas minha mulher não acompanhava meu ritmo, meu pique na cama, sabe como é?
- Hum, imagino...
- Ela achava normal umazinha por semana... Cara, umazinha o caralho! Não sou homem de uma por semana. Você tá me entendendo? Mas acho que toda mulher é assim, né? Devagar.
- Eu sei lá! Mas, ô Caio, se vocês não se davam bem nesse "quesito", porque ficou tanto tempo com ela?
- Ah, nada que uma relação extraconjugal não ajudasse... Tive uma namorada por uns 4 anos. Mas nem foi por isso que eu me separei, sabe?
- Sei não, sei de nada.

O petisco chegou, mas Virgínia não tinha estômago pra provar a lula à dorê. Usou a gastrite como desculpa. E mudou de assunto. Viagens! Falou, empolgada, sobre seu reveillon explorando o Nordeste. Ele logo deu sua opinião, todo senhor de si.

- Olha, lá pra cima só gostei de João Pessoa, conhece?
- Sim, amei... cada praia.
- O que me encantou em João Pessoa foram as pessoas, ah, que povo bacana. Gente simpática, educada, quase não vi preto lá.

Virgínia engasgou com a água e molhou toda sua blusa. Pediu licença pra ir ao banheiro. Foi e não voltou mais à mesa. No caminho pro carro, bloqueou o whatsapp do tal. Em casa, desinstalou o aplicativo. E chorou, desgostosa da vida e do ser humano.

Retratos

Não faz tanto tempo assim: tirar foto era uma decisão difícil. Você tinha que ter certeza de que aquele momento, aquela paisagem, a situação toda merecia um pedacinho do seu caro filme. Trinta e seis, vinte e quatro, doze... ah, os filmes de doze poses, então! Que medo de gastar o clique em algo idiota. Era uma decisão e tanto. Não só pelo dinheiro, mas pela escolha. Fotografou aqui, faltou filme pra fotografar mais adiante. Valia a pena? Medo.

E a ansiedade em ver o resultado? Aquela espera gostosa (às vezes angustiante)... Pagava-se até mais pela revelação express, um luxo. E se suas fotos tinham conteúdo mais, digamos, íntimo, era melhor evitar as lojas do shopping. Elas revelavam suas fotos sob o olhar curioso do público. Era uma atração! Vira e mexe apareciam uns nudes. Quase nunca se viam selfies. Também, né, quem gastaria filme com fotos de si mesmo? Quer se ver, vai até o espelho, pô.

Mas então... então vieram as câmeras digitais. E depois os celulares com câmeras. Uma indústria inteira faliu. E a fotografia nunca mais foi a mesma.

Fotografa-se de tudo, várias vezes, de vários ângulos, sob qualquer pretexto. Critério pra que se não precisa "miguelar" o clique? O auto-retrato - ops, selfies - é febre (ficamos mais egóicos?). Fotografar se tornou mais importante do que curtir aquele lugar, aquelas pessoas, aquele momento. Clica, publica, torce pra ser curtido - e sua felicidade chega a depender disso. A ansiedade da revelação de tempos atrás foi substituída pela fissura das curtidas alheias. É tudo tão instantâneo que o velho e bom álbum sumiu junto com os filmes fotográficos. O importante é a popularidade da foto no aqui-agora. Posteridade? Quem precisa disso?

A verdade é que essa mudança no ato de fotografar se reflete também nas relações, que se tornaram descartáveis e instantâneas. É isso mesmo, ou é só nostalgia?